Debatida no último ano, a expansão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para a Serra foi apresentada em detalhes mais concretos pela primeira vez à comunidade acadêmica na sexta-feira (15), no Campus do Vale, na Capital.
Na segunda (18), a reitoria da UFRGS voltou ao tema em reunião na Assembleia Legislativa do RS. Nesta terça (19), a discussão ocorre com a comunidade do Campus Centro e, para sexta (22), está marcada uma audiência pública na Câmara de Vereadores de Caxias do Sul.
No primeiro encontro, a iniciativa angariou simpatia dos presentes à implementação da nova unidade, ainda que com ressalvas. A principal vantagem sinalizada foi a expansão da instituição, vista como algo a ser comemorado. Outro apontamento foi para o ineditismo da presença de uma universidade pública na Serra.
Entre os questionamentos, estão dúvidas sobre a existência de demanda de alunos que justifique esse investimento e o contraste entre a criação de um novo espaço enquanto há situações precárias identificadas nas estruturas atuais.
O estudo
Em estudo elaborado pela Comissão de Assessoramento para Criação e Instalação do Campus Serra, é estimada a necessidade de 140 técnicos-administrativos e 160 professores, além de profissionais com funções gratificadas, para operar a nova unidade. Os servidores atuarão em seis cursos de graduação, que atenderão 2,8 mil estudantes, e em espaços como núcleos administrativos e a biblioteca. Também será preciso contratar serviços terceirizados como portaria, limpeza e manutenção.
A verba prevista é de R$ 3,17 bilhões para a consolidação do campus. A oferta do governo federal é investir R$ 60 milhões na compra de prédios e equipamentos. A reitoria solicitou que o valor suba para R$ 75 milhões. O que sobrar desse recurso pode ser utilizado na sede da universidade.
Segundo levantamento realizado no estudo, o número de matrículas nas escolas da Serra aumentou de 142,5 mil para 148,3 mil entre 2019 e 2023, e há um crescimento no número de pessoas de zero a cinco anos, ocasionado pela migração para a região de pessoas que buscam empregos e levam consigo as suas famílias. A conclusão foi de que, por isso, há demanda existente na região para abrir o campus.
Por enquanto, não há definição do local onde a unidade funcionaria. A ideia inicial era comprar o espaço onde operava o Campus 8 da Universidade de Caxias do Sul (UCS), que fica a cerca de 10 quilômetros do Centro da cidade. O custo total da compra giraria em torno de R$ 100 milhões, dos quais mais de R$ 70 milhões seriam investidos em reformas.
Uma alternativa é a aquisição de um prédio na área central de Caxias que já foi utilizado por uma faculdade privada e, por isso, não demandaria grandes adequações. Lá, o valor total baixaria para pouco mais de R$ 40 milhões. O ônus dessa escolha é o tamanho do terreno, de 7,3 mil metros quadrados, contra 13,3 mil metros quadrados do antigo campus da UCS. A UFRGS segue aberta a outras possibilidades de locais.
A expectativa da reitoria é de que o Conselho Universitário (Consun) analise a proposta em setembro e, no máximo até outubro, vote se deseja ou não criar a unidade. A ideia é que sejam implementados inicialmente seis cursos:
Administração
Engenharia Agrícola
Engenharia de Produção Mecânica
Engenharia de Materiais e Manufatura
Ciência de Dados
Pedagogia
Caso o órgão aprove a proposta, a intenção é de que as aulas sejam iniciadas já em março de 2026. Para isso, seria necessária a transferência de profissionais de dentro da própria UFRGS e de outras universidades federais, além de uma posterior abertura de concurso.
Opiniões na comunidade acadêmica
Jairo Bolter, presidente da Adufrgs – um dos sindicatos que representam professores –, manifestou que a entidade apoia a implementação do novo campus, mas salientou que o dinheiro que chegará à instituição para viabilizar o projeto, mesmo que possa ser utilizado em outros espaços da UFRGS, não resolverá o problema financeiro da federal.
— O problema financeiro da UFRGS só se resolve se conquistarmos a verba dentro do Congresso Nacional, que é onde está o dinheiro hoje, centrado em emendas parlamentares. A pauta hoje dos movimentos sociais e sindicais é resgatar o recurso da educação que era investido em 2014. O problema orçamentário da UFRGS não se resolve com o Campus Serra, mas, historicamente, sempre estivemos ao lado da expansão do Ensino Superior, e estaremos juntos com a decisão da universidade, independentemente de qual seja — pontuou Bolter.
Mateus Pessota, estudante de Engenharia Ambiental, é natural de Caxias e celebrou o projeto de ampliação, mas apontou para a dificuldade de transporte no caso de ocupação do antigo campus da UCS:
— Achei os cursos muito interessantes. Temos muita indústria e varejo lá, então acho que contempla bastante essas áreas. Mas me preocupa a questão da assistência estudantil, porque eu lembro que foi falado sobre transporte. O Campus 8 é mais afastado da região central e, no passado, havia uma linha específica só para isso, mas não tinha muitos horários.
A principal ponderação trazida por parte dos professores, técnicos e estudantes diz respeito aos cursos propostos e à realidade orçamentária. Nota técnica divulgada em julho pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS expressa preocupações sobre a viabilidade financeira, operacional e pedagógica do projeto, alertando para potenciais impactos negativos no orçamento e na qualidade da universidade como um todo. O documento pedia detalhamento da proposta que, em parte, foi apresentado no estudo na sexta-feira.
Com problemas históricos de infraestrutura, a instituição precisa realizar grandes obras, como a troca de telhados, e há anos carece de verba de investimento. Mesmo o dinheiro para a manutenção das atividades é curto – a comunidade relata falta de lâmpadas e precariedade nos aparatos de segurança dos campi, por exemplo.
— Eu não vejo problema nenhum em tocar esse projeto do novo campus da Serra. A proposta é bem clara, não tem muito questionamento em relação à implementação, mas as pessoas que eu vi contrárias falam sobre o contraste dentro da universidade, porque as coisas continuam sendo como sempre foram aqui, especialmente no Campus do Vale. Continuamos com goteira, continuamos com falta de lâmpadas, continuamos com a segurança precária — descreveu Fabiano Porto Rosa, gerente administrativo do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).
O professor Sergio Bampi, do Instituto de Informática, sinalizou que já existe uma federal que oferece Ensino Superior na Serra: o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). Por esse motivo, questiona se haverá demanda suficiente de alunos.
— As universidades privadas tiveram, nos últimos oito anos, uma queda absurda na matrícula presencial. Eu penso que é preciso mapear essa demanda, porque lá no campus do IFRS, na Serra, já tem Engenharia de Materiais, tem Engenharia Mecânica. Está errado o Ministério da Educação (MEC) continuar insistindo que o sistema federal tem que se expandir geograficamente. Exceto em regiões do Brasil muito pouco populosas, já não existe mais a necessidade de fazer novos campi — destacou o docente.
O técnico-administrativo José Luís Rockenbach se empolgou com o projeto.
— Eu penso que é um grande avanço. A universidade tem um papel importantíssimo e sempre lutamos para expandir. Tivemos outro período de expansão das universidades a partir dos anos 2000 que foi brecado no último período, e acho que temos que retomar — defendeu o servidor.
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