Encontro reunirá organizações de mais de 50 países para debater o avanço da extrema direita e do imperialismo

Na noite de quarta-feira (11), a sala Ipê do Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul reuniu representantes de organizações políticas, movimentos sociais e entidades acadêmicas para a apresentação oficial da programação da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos.
O encontro, previsto para ocorrer entre 26 e 29 de março de 2026, terá Porto Alegre (RS) como sede e pretende reunir delegações de mais de 50 países para discutir o avanço da extrema direita, os impactos do imperialismo nas relações internacionais e estratégias de articulação entre movimentos populares.
A atividade de lançamento foi organizada pelo comitê local responsável pela conferência e contou com a presença do economista belga Éric Toussaint, porta-voz do Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas (CADTM) e integrante do comitê internacional do evento. Segundo os organizadores, a conferência pretende construir um espaço de diálogo entre lideranças políticas, acadêmicos, representantes de governos locais e movimentos sociais que atuam em diferentes regiões do mundo.
Durante a apresentação, os participantes destacaram que a conferência surge em um contexto internacional marcado por conflitos armados, disputas geopolíticas e crescimento de movimentos políticos identificados com a extrema direita. Para os organizadores, esse cenário reforça a necessidade de articulação entre forças democráticas em escala global.
Alerta sobre o avanço da extrema direita
Ao comentar a importância da iniciativa, Éric Toussaint afirmou que a conferência ocorre em um momento que considera particularmente delicado na política internacional. Segundo ele, a combinação entre poder militar, interesses econômicos e discursos autoritários representa um risco para a democracia em diversos países.
“Esta conferência antifascista e anti-imperialista é muito importante porque efetivamente estamos vivendo um momento sumamente grave para a humanidade, porque temos como chefe da primeira potência econômica e militar do mundo um neofascista que recorre ao uso da força para impor os interesses das grandes empresas e do grande capital dos Estados Unidos”, declarou Toussaint.
Na avaliação do economista, conflitos internacionais recentes e pressões políticas sobre países como Venezuela, Cuba e Irã são exemplos de disputas que, segundo ele, precisam ser debatidas em uma perspectiva global. Para Toussaint, o objetivo do encontro é fortalecer redes internacionais que atuam em defesa da soberania dos povos e da cooperação entre países.
Construção de uma articulação internacional
Representantes de partidos políticos brasileiros também participaram da apresentação da programação. Para Raul Carrion, dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a conferência busca ampliar o diálogo entre organizações que, embora atuem em contextos distintos, enfrentam desafios semelhantes diante do crescimento da extrema direita.
Carrion afirmou que o encontro não pretende criar uma nova organização internacional, mas estabelecer pontos de convergência entre diferentes movimentos e forças políticas. Segundo ele, a articulação surge diante de transformações na geopolítica mundial e de disputas em torno do papel das grandes potências.
“O fascismo nasce do ventre do imperialismo. Diante deste quadro, há uma exigência de que os povos do mundo que resistem a esta ofensiva unifiquem a sua luta. O objetivo não é criar uma organização nova, mas uma articulação que encontre pontos de unidade e propostas de ação”, destacou.
A análise apresentada por Carrion também menciona o que ele define como mudanças no equilíbrio de poder global, com a emergência de novos polos econômicos e políticos. Na avaliação do dirigente, esse cenário intensifica tensões internacionais e torna mais frequentes disputas entre grandes potências.
A escolha de Porto Alegre
A realização da conferência na capital gaúcha foi destacada pelos organizadores como uma decisão que dialoga com a trajetória política da cidade. Porto Alegre sediou, no início dos anos 2000, diversas edições do Fórum Social Mundial, evento internacional que reuniu movimentos sociais e organizações críticas à globalização neoliberal.
Para Juçara Dutra, dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT), a memória desse processo histórico contribui para que a cidade volte a receber um encontro internacional voltado à discussão de alternativas políticas e sociais.
“Temos plantada aqui uma semente de resistência e temos a responsabilidade de fazer com que esta cidade continue sendo um polo de resistência. Se nós somente denunciarmos e ficarmos no nosso lugar, o fascismo vai avançar muito mais rapidamente”, afirmou Dutra durante a apresentação.
A dirigente também destacou que a conferência ocorre em um contexto de guerras e crises políticas que, segundo ela, vêm sendo naturalizadas no debate público internacional.
Contexto político e disputas globais
O vereador de Porto Alegre Roberto Robaina, do Psol, apresentou uma avaliação sobre o cenário político internacional. Segundo ele, desde o início da organização da conferência houve mudanças significativas no contexto global, incluindo eleições, crises diplomáticas e episódios de violência política.
“O Trump dirige o principal país, a maior potência militar do mundo, e combina neofascismo e imperialismo. Este ano começou com um presidente sequestrado no dia 13 de janeiro e agora, em março, um presidente assassinado. Este é o padrão de disputa que o império quer impor”, afirmou Robaina.
O parlamentar ressaltou que, ao mesmo tempo em que observa um fortalecimento de lideranças de extrema direita em diferentes países, também existem mobilizações sociais e políticas que contestam essas agendas.
Quatro dias de debates e mobilização
A programação apresentada prevê quatro dias de atividades distribuídas entre espaços da universidade e locais parceiros da cidade. A conferência deve começar no dia 26 de março com o Fórum de Autoridades Antifascistas, encontro que reunirá parlamentares e representantes de governos locais para discutir políticas públicas e cooperação internacional.
Na mesma data, às 18h, está prevista uma marcha de abertura com concentração no Largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre. Nos dias seguintes, os debates ocorrerão principalmente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Entre os temas previstos para as mesas estão democracia, soberania nacional, políticas econômicas, enfrentamento à extrema direita e conflitos internacionais. Segundo os organizadores, também haverá discussões sobre o avanço de movimentos autoritários na América Latina e na Europa.
Rodrigo Dilelio, presidente do Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre, explicou que as mesas principais devem contar com participação de convidados internacionais. Entre os nomes citados estão a ex-presidenta do Parlamento da Grécia, Zoe Konstantopoulou, e a eurodeputada francesa Manon Aubry.
Atividades autogestionadas ampliam os debates
Além das plenárias principais, a conferência contará com cerca de 150 atividades autogestionadas, organizadas por entidades, movimentos sociais e grupos acadêmicos. Essas atividades ocorrerão paralelamente à programação oficial.
A presidente nacional do Psol, Paula Coradi, afirmou que esse formato foi adotado para ampliar a diversidade de temas e permitir que organizações participantes proponham discussões próprias.
“A gente conseguiu formatar duas mesas do Fórum de Autoridades Democráticas Antifascistas e mais 11 painéis. Estão bem amplas, mas certamente não conseguimos englobar todos os temas. Por isso abrimos espaço para as atividades autogestionadas, para que debates que ficaram de fora tenham espaço de qualquer forma”, explicou Coradi.
Debates sobre desigualdade, violência e território
Outro eixo previsto na programação envolve debates sobre questões sociais e econômicas consideradas pelos organizadores como centrais para compreender o avanço da extrema direita. Entre os temas estão violência de gênero, racismo, políticas agrárias e concentração de terras.
O presidente do Sindicato Intermunicipal de Professores das Instituições Federais de Ensino Superior do Rio Grande do Sul – Adufrgs-Sindical, Jairo Bolter, afirmou que esses debates também dialogam com problemas vividos no Brasil. Segundo ele, a violência contra mulheres e comunidades tradicionais tem sido frequentemente associada a discursos políticos que estimulam intolerância.
“Nós estamos batendo recorde de feminicídio no Rio Grande do Sul e no Brasil, e nós temos a fonte disso tudo. Tínhamos a voz forte deste país liderando a violência contra as mulheres, liderando o ataque aos quilombos e aos indígenas. A direita brasileira se movimenta nesse nível e precisamos urgente fazer um debate acerca dessas violências”, afirmou Bolter.
O dirigente também destacou que o debate sobre soberania alimentar e reforma agrária será abordado durante o encontro, em mesas que devem reunir representantes de movimentos sociais do campo e especialistas em políticas agrícolas.
Expectativa de participação internacional
De acordo com o comitê organizador, delegações da Europa, América Latina, África, Ásia e do mundo árabe já confirmaram presença na conferência. Os participantes incluem representantes de partidos políticos, organizações sociais, sindicatos, universidades e redes internacionais de ativismo.
A expectativa dos organizadores é que o encontro sirva como espaço de troca de experiências e formulação de propostas para enfrentar o crescimento de movimentos autoritários em diferentes regiões do mundo.
A conferência também pretende retomar o debate sobre cooperação entre movimentos populares, buscando aproximar agendas locais de disputas políticas globais. Para os organizadores, a articulação internacional será um dos principais resultados esperados do encontro, que ocorre em um contexto de intensificação das disputas políticas e geopolíticas no cenário mundial.
Editado por: Katia Marko
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