Porto Alegre receberá a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos entre os dias 26 e 29 de março, com o intuito de ampliar o debate sobre o avanço da extrema-direita e articular o combate ao autoritarismo.
Em entrevista à Matinal, Rodrigo Dilelio, membro da Comissão Organizadora da Conferência e presidente do PT em Porto Alegre, detalha a construção do evento e defende a atualização das estratégias de enfrentamento ao fascismo. “Tivemos vários casos de confrontos que começaram com uma discussão política nesse contexto de sociedade mais polarizada. O fascista tem a violência como algo naturalizado. O que queremos é trocar experiências e construir uma espécie de protocolo para atuarmos nesse contexto”, explica.
Na organização do evento, estão o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), o Sindicato Intermunicipal dos Professores de Instituições Federais de Ensino Superior do Rio Grande do Sul (Adufrgs-Sindical) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).
A programação conta com palestrantes internacionais como Mireille Fanon, jurista antirracista francesa, Zoe Konstantopoulou, ex-presidente do parlamento grego, Jorge Arreaza, ex-presidente da Venezuela e Éric Toussaint, historiador belga. Participam também políticos e militantes gaúchos e brasileiros, como Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul, Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre e as deputadas federais Maria do Rosário (PT), Daiana Santos (PCdoB) e Fernanda Melchionna (PSOL).
Com 11 mesas de conferência e cerca de 150 atividades autogestionadas, o evento também prevê uma marcha partindo do Largo Glênio Peres, com início previsto às 18h, na quinta-feira (26), dia do aniversário de Porto Alegre.
Matinal – Como começou a organização da I Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre?
Rodrigo Dilelio – Na ocasião, o PSOL e o PT discutiam uma aliança eleitoral, entre novembro e dezembro de 2023. Os companheiros do PSOL colocaram como condição para fazer a aliança que nós organizássemos uma conferência internacional para debater a temática do fascismo, sob a justificativa de que é um problema que eles têm enfrentado na construção política junto à base social deles.
A extrema-direita ocupou espaços onde até então não era uma força política real, é uma constante desde 2013 – a partir da minha visão. Não estou colocando a culpa nas jornadas de 2013, mas elas aparentemente sinalizam a entrada do ator extrema-direita. A partir daí, para a adesão de uma política mais agressiva do ponto de vista fático, foi um passo. O Movimento Brasil Livre (MBL), sobretudo, construiu uma narrativa demonizando a Dilma Rousseff, uma narrativa extremamente misógina a respeito das supostas incapacidades dela. Isso nos sensibilizou muito.
Quando recebemos essa oferta, nós aceitamos de imediato e procuramos o PCdoB para discutir a possibilidade de fazer a conferência junto do partido, que tem vínculos muito sólidos internacionalmente, assim como o PT e o próprio PSOL. Então, passamos a conversar com o PCdoB, depois com o MST, com o CPERS Sindicato e com a ADUFRGS. Compusemos esse comitê originário com o propósito de convencer as demais organizações da classe trabalhadora de que a temática do fascismo é relevante para nós. Neste comitê de seis organizações, temos duas organizações de professores. Então, vocalizamos uma visão de que estudantes estão sob assédio dessas ideias fascistas – eu também sou professor e enxergo como dar aula de sociologia, filosofia, virou um inferno depois de 2013.
Por esse motivo, nós procuramos essas entidades, instituições que organizam trabalhadores no campo da educação e a partir daí o comitê organizador foi sendo alargado. São dezenas de entidades do Rio Grande do Sul e do país que aderiram à convocação desta conferência em Porto Alegre.
Essa convocação também tem a presença de uma organização internacional, o Comitê para a Abolição de Dívidas Ilegítimas (CADTM), cujo principal dirigente é o Éric Toussaint. Desde o início, desde a primeira conversa, é um cara que foi mencionado, que tem muito prestígio no Fórum Social Mundial (FSM), é membro do seu Conselho Internacional. Ele se engajou com muita energia e contribuiu muito para que o Fórum alcançasse essa dimensão internacional. Isso transformou a conferência num espaço de articulação que conseguiu também se relacionar com a memória do FSM.
Tivemos a felicidade de fazer uma opção por uma data, um período em que a cidade celebra o seu aniversário. Então a marcha de abertura acaba sendo no dia do aniversário da cidade, não sem causalidade. Também estará ocorrendo o South Summit. Então, a cidade, nesse momento, vai estar com dois eventos importantes.
Matinal – A organização da Conferência enxerga ela como um contraponto ao South Summit? Há algum antagonismo entre os eventos?
Dilelio – Não. Eu diria que as organizações que compõem a conferência têm diferentes visões sobre o South Summit. Mas falando a partir do PT, nós não vemos qualquer contradição. A feira é uma coisa boa para a cidade. A temática da inovação também é importante, é relevante.
É comum, aliás, que o PT organize uma delegação que atua com ciência, tecnologia e inovação para ir ao South Summit. Somos muito bem recebidos, inclusive. Então, essa contradição não existe, mas existem visões diversas sobre o evento.
Matinal – Tu falaste sobre o Fórum Social Mundial. Existe uma expectativa de que a Conferência Internacional Antifascista seja recorrente na capital, como foi o FSM?
Dilelio – Essa é uma discussão que o Comitê Organizador e o Comitê Internacional vão fazer ao longo da conferência. Eu diria que é muito provável que nós tenhamos uma segunda edição. Algumas organizações manifestaram interesse em levar o evento para São Paulo, Buenos Aires e até para o México. É um debate muito incipiente, que vai ganhar espaço na nossa agenda nos próximos dias, quando começaremos a preparar o documento que queremos aprovar na conferência.
Matinal – Hoje se utiliza muito da palavra fascista para definir determinados grupos políticos. Indo na contramão desse movimento, o que é ser antifascista no Brasil, e no mundo, hoje em dia?
Dilelio – Vou dar um exemplo extremo do que considero uma postura que virou a chave no processo político. Lembra das carreatas que a extrema direita começou a organizar pela abertura do comércio durante a pandemia? É um caso que vem à cabeça em Porto Alegre, mas aconteceu também nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa, vários lugares onde o fascismo é uma ameaça real. Aqui em Porto Alegre, um grupo de torcedores antifascistas bloqueou uma das carreatas e fizeram eles andarem em marcha ré.
O fascismo anda de mãos dadas com a violência política, com o sectarismo, com o que a gente chama de deboche. Me lembro da condição de Bolsonaro imitando as pessoas que estavam aguardando por leito ou precisando de oxigênio durante a pandemia para se manter vivo e ele debochando. Isso é o fascismo cuspido e escarrado.
Essas manifestações na volta dos quartéis, em 2022, e as carreatas da morte durante a pandemia, como nós chamávamos, foram um estopim para que algumas pessoas se colocassem, colocassem seus corpos, para impedir esse tipo de manifestação.
Então, o antifascismo significa, antes de mais nada, uma decisão de enfrentar o fascismo. Para nós, isso é demonstrado na disposição de impedir uma organização política de se manifestar de forma violenta, de praticar atos de misoginia, – isso é uma constante no fascismo contemporâneo, já era no fascismo histórico e se repete nessa versão atual.
É verdade que a nossa compreensão do fenômeno histórico tem raízes nesse processo e a disposição de enfrentar isso é a razão pela qual a gente chama a conferência. O propósito da conferência é atualizar o modus operandi, porque nós não acreditamos que qualquer pessoa, em qualquer circunstância, possa colocar o seu corpo contra a disposição fascista de alguém ou de algum grupo. Porque isso muitas vezes pode significar a morte ou levar a pessoa a ser um alvo de violência extrema.
Tivemos vários casos de morte, inclusive, como o de mestre Moa na Bahia, tivemos vários casos de confrontos que começaram com uma discussão política nesse contexto de sociedade mais polarizada. O fascista tem a violência como algo naturalizado. O que queremos é trocar experiências e construir uma espécie de protocolo para atuarmos nesse contexto.
Matinal – Tu comentaste sobre uma disposição naturalizada ao fascismo presente em determinados coletivos, que não necessariamente se percebem como fascistas. Como enfrentar esses grupos que não se identificam abertamente como fascistas?
Dilelio – Olha, eu diria que o principal problema muitas vezes está almoçando conosco na mesa de domingo. O tiozão ou a tiazona, a pessoa mais jovem, que começa a povoar a família com questionamentos sobre o quão pertinente é a igualdade entre as mulheres, por exemplo. Se incomodam com o fato das mulheres terem poder de escolha. Eu diria que esse é o principal desafio, entender os ressentimentos dessa pessoa ou organização que está manifestando ideias fascistas.
Não podemos permitir que o campo antifascista fique sujeito a influências de um “fascismo tranquilo”, que é aquele que vai operando a partir das brincadeirinhas. Não é aquele que vai te dar uma bifa no rosto, mas é ele que pode inocular ideias que problematizam a igualdade entre as pessoas, a igualdade formal e do ponto de vista também dos interesses sociais e políticos.
O desafio número dois é conseguirmos caracterizar o problema fascista. O fascismo, na sua versão mais recente, se distanciou um pouco da visão do Estado como organizador da economia para defender um hipercapitalismo. Um anarcocapitalismo, como é o caso do Javier Milei.
Matinal – Qual a expectativa de público para a conferência? Como uma pessoa interessada pode se registrar para participar?
Dilelio – O registro da participação e do credenciamento tem que ser feito no site www.antifas2026.org. Esse é o nosso canal de comunicação da conferência e por ali as pessoas podem registrar o seu interesse em participar.
Sobre a expectativa de público, nós temos 3.500 pessoas inscritas. São 170 atividades, sendo 11 conferências promovidas pelo comitê organizador, além do Fórum de Autoridades, e outras 150 atividades autogestionadas para debater temas da imigração, violência política, articulação entre as mulheres, entre outras.
A primeira atividade vai acontecer na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, na quinta-feira, que vai ser o Fórum de Autoridades. E depois teremos a marcha – com boas expectativas, acreditamos que reuniremos algumas milhares de pessoas no Largo Glênio Peres.
Nos últimos dias, o pessoal tem ficado muito animado, muita gente confirmando, delegações brasileiras mais próximas que vêm de ônibus e carro. Da Argentina, nós temos uma delegação de 120 pessoas e outras centenas de pessoas de outros países também.
Nossa expectativa é de casa cheia. A Feira Bella Ciao será mais um ponto de encontro, para adquirir produtos da economia solidária. Vamos ter um circuito de bandas que vai tocar na sexta-feira (27) também, no Quarto Distrito. Tudo isso concorre para reunirmos 3.500 pessoas de fato na nossa discussão.
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I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos
Data: 26, 27, 28 e 29 de março
Mais informações: https://antifas2026.org
Veja a publicação original no portal Matinal aqui.
