Nesta semana, foi lançado o livro “Crianças e Exílio – Memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar”, que reúne 46 depoimentos de brasileiros que viveram o exílio ainda na infância, durante a ditadura militar. Organizado pelas professoras Helena Dória Lucas de Oliveira e Nadejda Marques, a obra dá voz a homens e mulheres que, quando crianças, foram obrigados a deixar o país em função da perseguição política sofrida por seus pais.
O livro foi feito de forma coletiva, com todos os participantes escrevendo seus próprios textos. Entre os autores, também participaram as organizadoras do projeto. “Tanto a Nadejda quanto eu, e mais as 44 pessoas que escrevem seus textos no livro, cresceram no exílio. Algumas nasceram no Brasil e foram para o exílio junto com seus pais e suas mães, outras nasceram no exílio”, conta Helena Dória. “Esse livro é feito por crianças que estiveram nessa trajetória”, comenta.
O lançamento do livro ganhou uma mesa redonda na sede da ADUFRGS-Sindical, com Helena e os autores Rogério Tosca e Antonio Dória Lucas de Oliveira, mediada pela professora Daniela Fialho, diretora de Comunicação do Sindicato. Ainda, participaram de uma sessão de autógrafos na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre nesta quarta (12).
A produção da obra começou em 2023, com os 50 anos do golpe de Estado no Chile, que derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Os brasileiros que estavam no país à época se organizaram em uma viagem para agradecer a recepção durante o exílio e estar perto do povo chileno na comemoração.
Nesses reencontros que surgiu a ideia do livro, além da parceria com Nadejda Marques. Helena começou a procurar contatos pelo Facebook e em outras redes sociais. “Fui em busca de pessoas que, de certa forma, tinham convivido conosco”, comenta.
Helena também destaca que, da enorme produção literária sobre a ditadura militar, “há alguma coisa escrita, mas muito pouco” sobre a segunda geração, as crianças da época.
Quem era convidado ia lembrando de outras pessoas e chamando para o projeto. No fim, 65 pessoas toparam a ideia. Porém, na hora de colocar a caneta no papel, muitas tiveram dificuldades emocionais, enquanto outras tinham medo da exposição de detalhes sensíveis das suas vidas. Assim, sobraram 46 no projeto.
“Outra dificuldade eram as pessoas que adiaram, adiaram, adiaram e, quando sentaram para escrever, escreveram muito. Depois a dificuldade era fazer o corte, porque era cortar algo que custou tanto pra sair de dentro de ti”, relembra Helena.
“Teve gente que escreveu sua história, recebeu o livro e nem abriu ele. Não leu nem a sua história, nem a de outros. É uma cicatriz que não é superficial, é profunda”, comenta Oliveira. “Quando tu põe o ponto final, parece que o texto vai andar sozinho pelo mundo. É a tua história que vai andar por aí”.
Uma das 46 histórias
Entre as histórias do livro, há a de Helena Dória e sua experiência com o exílio. “Eu tinha 7 anos quando meu pai foi preso. Meu pai professor de História. Os agentes foram até a escola dele e tiraram ele da sala de aula dele”, conta. “A gente não pode ver o pai”.
O pai de Helena foi levado para o Palácio da Polícia em Porto Alegre, onde presos políticos foram torturados durante o regime militar e, no segundo andar, houve tortura e homicídios nas salas onde funcionaram o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
Disseram pra ela que o pai estava no hospital, mas Helena já entendia que havia algo de diferente acontecendo, principalmente por conta do estranho local que ia com a mãe para tentar vê-lo.
“Quando meu pai foi preso, ninguém me disse ‘teu pai foi preso’. Mas eu sentia em casa um clima de cochicho, de falar baixinho, minha irmã mais velha olhando pela janela. Sempre tinha um carro estacionado na frente de casa”, relembra.
Quando seu pai saiu da prisão, decidiram por sair do país. “Passamos um ano no Chile. Estávamos no Chile quando aconteceu o golpe de estado ao governo Allende. Então, com ajuda das Nações Unidas, o governo cubano nos recebeu. Cuba recebia os refugiados que corriam risco de vida”, comenta Helena.
Foi em Cuba que Helena passou a maior parte do seu exílio e onde cresceu. No final dos anos 1970, com a promessa de uma abertura “lenta, gradual e segura”, como afirmava o presidente militar Ernesto Geisel, a perspectiva de voltar para casa era cada vez mais real. Mas a família decidiu não voltar direto de Cuba para o Brasil e foram para Guiné-Bissau trabalhar no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Ao todo, Helena ficou 10 anos fora do Brasil, sendo um ano no Chile, seis em Cuba e três em Guiné-Bissau. Na volta à terra natal, mais velha, ela diz ter ficado “ciente de tudo aquilo que tinha passado” e que havia sido uma “violência perpetrada pelo Estado brasileiro e não uma opção do meu pai e da minha mãe”.
Nadejda Marqies, sua colega na organização dos relatos, também é uma criança do exílio. Quando bebê, seu pai foi assassinado no chamado “Massacre da Granja São Bento, uma operação policial que culminou em chacina na Região Metropolitana do Recife em janeiro de 1973.
Nadejda foi para o Chile acompanhada só da mãe. Lá conheceu Helena, ainda crianças. Nadejda ainda foi para a Suécia e depois Cuba, antes de voltar ao Brasil. “Tem pessoas que saíram e permaneceram em Cuba durante todo seu exílio, outras pessoas que saíram do Chile com o golpe de estado e foram pra França”, comenta Helena. “O semelhante entre todos nós é que crescemos ou nascemos no exílio”, reitera.
“Quem melhor do que tu pra coordenar a mesa?”
Durante o lançamento de “Crianças e Exílio – Memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar” na ADUFRGS-Sindical, além dos autores do livro, uma outra pessoa que participava do evento teve sua infância marcada pelo exílio: Daniela Fialho, professora de Arquitetura na UFRGS e diretora de Comunicação do sindicato.
Fialho diz que, quando foi convidada, a indagaram: “Quem melhor do que tu pra coordenar a mesa?” Daniela entrou em contato com a perseguição da ditadura militar por conta de seu pai, que esteve ligado ao presidente deposto João Goulart e era contra o regime, assim como sua mãe.
“Ele era sociólogo da superintendência da reforma agrária ligada ao governo Jango (João Goulart). Portanto, em 1964, ele já perdeu o emprego. Ele dava aula também de Filosofia na PUCRS. Aí ele ficou meio clandestino aqui em Porto Alegre”, diz Daniela.
Ela lembra de uma viagem que fez quando era criança com outros dois casais de amigos dos pais pela Serra Gaúcha. Um desses casais de amigos foi abordado pela polícia em Nova Petrópolis e o homem foi levado para a delegacia. Depois, ficou sabendo que ele fora levado à base aérea de Canoas, transferido para o Rio, preso e torturado.
Tudo isso pois alguém o identificou incorretamente como o médico que estava ajudando os guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que haviam sequestrado o embaixador suíço Giovanni Bucher. Bucher sofria de problemas do coração e necessitava ajuda médica constante. Um médico carioca cuidava do tratamento do embaixador.
“O que me marcou nessa história é que, brincando lá em Gramado e Canela, eu quase quebrei os óculos dele. E, na hora que eu quase quebrei, ele brincou comigo que eu teria que dirigir o carro, porque ele não enxergaria nada”, relembra Daniela. “E na despedida, ele me disse assim: ‘Que bom que tu não precisou dirigir o carro, se não ia ser presa’”.
Esse evento marcou a família, que entendeu que o Rio Grande do Sul não era mais um local seguro para ficarem. Moraram por um tempo em São Paulo e em Niterói, no Rio de Janeiro. Foi na cidade fluminense que veio a gota d’água para a família, quando o pai sofreu uma ameaça direta de prisão.
“Ele estava em um bar com um grupo de amigos. Um bar pequeno, todo mundo tomando cerveja. Eu devia estar brincando na beira da praia. Aí todo mundo se juntou em uma mesa e um cara que estava lá, que se juntou à mesa, disse que estava vigiando meu pai porque ele seria preso”, relata Daniela. “Meus pais fugiram do Brasil em 1974 porque corriam o risco de serem presos e foram morar em Portugal”, conta.
Daniela Fialho, que tinha 12 anos na época do exílio, diz que demorou a entender o que de fato estava acontecendo no país natal. “A forma como eu me lembro de ter tomado conhecimento do que acontecia no Brasil foi quando a gente chegou em Portugal e estava passando ‘Estado de Sítio’, do Costa-Gravas. Minha mãe me levou pra ver. Se eu não tinha alguma noção antes, ali eu comecei a ter”, comenta.
O filme do grego Costa-Gravas retratou, já em 1972, ano de lançamento da obra, os terrores das ditaduras sul-americanas, assim como a influência estadunidense nos regimes militares da época.
Foi só em 1980 que Daniela e sua família voltaram ao Brasil. Mas, antes de retornar à Capital, ficaram um tempo em São Borja, na fronteira Oeste do Estado. A intenção era ficar próximo a uma rota de fuga, no caso o Uruguai, enquanto se testava a segurança desse retorno em meio à reabertura. Eventualmente, a família voltou para Porto Alegre.
“A gente sabia que ainda era perigoso. Tinha-se esse medo. Uma desconfiança, ‘será que é verdadeira essa abertura?’”, lembra Daniela. “Tinha um medo, mas tinha também uma coisa de ‘vamos recuperar a democracia brasileira’. Aquela esperança de luta”, afirma.
Agora, em 2025, Fialho entra em contato novamente com histórias de infâncias marcadas pelo exílio. Contudo, após ler a obra organizada por Helena Dória Lucas de Oliveira e Nadejda Marques, ela tem dificuldade em comparar ou igualar a sua história com a de outros que o livro mostra.
“Eu li já uns relatos do livro, vários deles são bem fortes. A Helena tem uma história bem pesada. Eu posso dizer que tive um ‘exílio alegre’. O que posso dizer que o que se iguala é que a gente trocou muito de escola”, diz Daniela. “Eu não sofri, nem meus pais sofreram tanto”.
Helena diz que esse é um sentimento comum que ela encontrou entre os autores de “Crianças no Exílio”. Alguns acreditavam que suas trajetórias de vida não eram tão importantes quanto a de outras pessoas com um passado mais pesado.
“Alguns de nós tiveram seus pais assassinados no Brasil. E só uma autora teve o pai e a mãe assassinados. Quem não teve essa história achava que a sua era menos importante. E nós entrávamos para dizer que ‘não’, que todo exílio é importante de ser narrado. Se nós não escrevermos, quem é que vai escrever?”, questiona.
Mas Helena alerta: “Quem viveu essa história precisa publicizá-la”. “Somos uma geração dos filhos e filhas de quem resistiu ao golpe e depois teve de se exilar. Essa geração não cometeu nenhum crime. Eles estavam defendendo a democracia”, afirma.
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