ADUFRGS alerta para o tratamento e prevenção das doenças mentais durante a Campanha Janeiro Branco

Dentro da programação da Campanha Janeiro Branco, que neste ano traz como tema “Quem cuida da mente, cuida da vida”, a ADUFRGS-Sindical conversou com a Professora Sênior da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e integrante dos GTs de Assuntos de Aposentadoria e de Direitos Humanos do PROIFES-Federação, Dóris Lieth Nunes Peçanha.

Ela é autora do livro Cuidando da Vida: olhar integrativo sobre o ambiente e o ser humano. Em entrevista ao programa de podcast do sindicato, a professora destacou aspectos relevantes para a preservação da saúde mental dos professores e professoras. “Durante a pandemia, o fato de ficarmos restritamente em casa foi uma grande demanda para a nossa mente e exigiu uma capacidade de adaptação para garantirmos uma boa saúde. Foi uma forma de aprendizado para vermos o mundo de uma outra forma”, observou.

Dóris defendeu as terapias alternativas como forma de tratamento das doenças mentais e insistiu na autonomia das pessoas. “O ser humano tem um reino mental e deve cuidar de sua mente, comandar, ser o diretor e poder organizar suas emoções e pensamentos, ser o dono de si. Precisamos sair do modo automático e pensarmos mais”, refletiu.

ADUFRGS-Sindical – Qual a importância da campanha Janeiro Branco?

Há vários anos, temos essa campanha maravilhosa de conscientização das pessoas para a necessidade de cuidar também da sua saúde mental. Cuidamos do nosso físico e esquecemos da mente, que é extremamente importante. Nós temos índices cada vez maiores de doenças mentais e depressão no mundo e uma série de problemas relacionados ao trabalho como a Síndrome de Burnout.

Precisamos olhar para isso e corrigir a rota. O ser humano tem um reino mental e deve cuidar de sua mente, comandar, ser o diretor e poder organizar suas emoções e pensamentos, ser o dono de si. Ter consciência de si mesmo para não sofrermos influência externa. O uso demasiado da tecnologia gerou algumas situações de compulsão principalmente em jovens. O fato de estar sempre plugado nas redes sociais faz as pessoas desviarem de si e abrirem caminho para uma série de transtornos.

Qual foi o impacto da pandemia de Covid-19 na saúde mental das pessoas?

Os professores, por exemplo, que estavam acostumados com a sala de aula, tiveram que trabalhar em casa e ainda dar conta dos afazeres do lar. Foi um impacto muito grande principalmente para as mulheres. O uso excessivo do computador gerou inúmeras queixas de fadiga ocular, pois tudo aconteceu no formato online, as aulas, lives e reuniões. O lado bom da pandemia é que ficamos mais próximos por intermédio do sistema virtual. A tecnologia e as redes sociais são ótimas, porém tudo tem limite.

Temos muitos relatos de depressão e ansiedade durante a pandemia. O corte dos laços sociais foi muito difícil, nos tirou os espaços de fala. No mundo do trabalho, a conversa é muito importante, até mesmo a pausa para o cafezinho é algo extremamente útil e necessário para a saúde mental. Na pandemia, o momento presencial de troca acabou. Houve um corte nas famílias, quantos idosos não puderem abraçar seus netos e familiares. Aqueles que estavam acostumados a viver em um ambiente social mais amplo tiveram que se isolar e isso foi muito doloroso.

O fato de ficarmos restritamente em casa foi uma grande demanda para a nossa mente e exigiu uma capacidade de adaptação para garantirmos uma boa saúde. Têm pessoas que conseguiram aprender com a pandemia e ver o mundo de uma outra forma. Foi um momento de repensarmos até quando vamos levar essa vida na correria, na invasão de espaços. O vírus veio invadindo a natureza. Antes o homem dominava a natureza e hoje temos que viver em harmonia respeitando o espaço do outro. Somos todos um e precisamos viver juntos e manter a vida. Existe a tristeza da perda, da depressão, mas é preciso refletirmos de que forma podemos sair dessa experiência e assumirmos nossa própria vida. Somos criadores de nossa própria vida.

Como a sociedade encara a doença mental? Ainda existe preconceito?

Sim. Ainda temos resquícios da luta antimanicomial. Tivemos uma melhoria porque as pessoas não são mais segregadas em asilos, nos hospícios como antigamente, hoje existem mais atendimentos ambulatoriais. Mas continuamos com muito preconceito em relação à doença mental, ela é vista de forma estigmatizada. As pessoas não querem conviver com outras acometidas de doença mental. A tendência é afastar o doente mental. No entanto, ninguém está imune a um transtorno mental. Se existem pessoas sofrendo no meu ambiente, eu também sou responsável por isso.

Dentro de uma teoria sistêmica, todos os seres vivos estão conectados. Conseguimos melhorar as questões de saúde quando nos integramos. Quando a gente muda o olhar, tem empatia, amorosidade e escuta, é possível melhorar as situações de saúde. Na jornada de saúde mental precisamos acolher, sensibilizar e convencer que o problema do outro também é nosso.

É difícil as pessoas reconhecerem que precisam tratar a saúde mental?

Negar esse fato trata-se de uma defesa. É difícil as pessoas assumirem seu reino mental. Se ficarmos pensando de forma negativa, vamos atrair experiências negativas. As células do nosso organismo nos ouvem muito e o nosso corpo vai responder ao que ele recebe. Muitas emoções contidas acabam se transformando em transtornos mentais.

Que tipo de tratamento é indicado para tratar a ansiedade, depressão e outros problemas relacionados à saúde mental? Apenas o uso de medicação é suficiente ou apostar nas terapias alternativas é um caminho?

Há estudos que comprovam a eficácia da meditação e das terapias alternativas no tratamento de doenças mentais. Inclusive, são reconhecidas no sistema de saúde público. A meditação é extremamente importante porque ela nos faz parar, não pensar em nada, esquecer desse mundo e de tudo, é estar consciente consigo mesmo, acolher e respirar. A meditação ressalta a importância de quem somos nessa vida interior. Nós adoecemos porque perdemos o contato com o nosso eu profundo.

Outra questão preocupante é que muitas crianças estão adoecendo pela síndrome de abstenção da natureza, que é uma fonte de saúde e de cura. Precisamos de contato com os parques, árvores, água. Na vida nós fomos nos urbanizando tanto que cortamos os laços com a natureza, que faz parte da nossa história humana. Ao perder o contato com os bens naturais isso tem um impacto na saúde. A ciência, psicologia, psicanálise e terapias alternativas podem ajudar muito no tratamento das doenças mentais. É fundamental buscar a ajuda de um profissional para indicar o melhor tratamento terapêutico. Estar no presente é curativo e nos ajuda tremendamente na saúde mental.

Na sua opinião, as pessoas vivem no modo automático?

A saúde está em sair do piloto automático. No nosso reino mental, nós somos os criadores por excelência. Senão criarmos a nossa própria vida, alguém fará isso por nós. O contato com o eu profundo é a fonte da criação. Todo mundo quer brilhar porque todo mundo é luz, quem não quer ser reconhecido? Um outro mundo sempre é possível, mas não será no piloto automático, que nos bombardeia diariamente e nos impede de pensar. Na realidade pensar é duro, pois exige uma grande reflexão. O modo automático é fácil e temos a tendência em ficar na zona de conforto.  Pensar tem a ver com críticas e mudanças, por isso é mais complicado, inclusive podemos até enxergar nossa doença mental, que muitas vezes, insistimos em negar.

Somos todos um, tudo está interligado, precisamos de uns aos outros para mudarmos nossa realidade e vivermos em plenitude.

Ouça o podcast aqui.

Veja as matérias:

Janeiro Branco na ADUFRGS-Sindical: Atenção com Políticas Públicas

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Defesa da saúde mental e da vida é tarefa da ADUFRGS-Sindical durante a Campanha Janeiro Branco 2022

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