Período eleitoral não pode impedir diálogo sobre reajuste aos professores/as federais, diz diretor da ADUFRGS-Sindical

O diretor Tesoureiro da ADUFRGS-Sindical, professor Eduardo Rolim, participou nesta quarta-feira, 4, do programa Bom Dia, Democracia, da Rede Estação Democracia, falando sobre a campanha salarial dos professores/as federais e a falta de diálogo por parte do governo federal. O sindicalista destacou que o período eleitoral não pode ser impeditivo para abordar o tema, já que os servidores amargam mais de cinco anos sem reajuste, totalizando uma defasagem de 37,16%, considerando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Rolim falou da importância de ter esse espaço na mídia para falar do tema da campanha salarial, pois o impacto na mídia tradicional costuma ser muito pequeno. “O interesse das grandes empresas e conglomerados de comunicação não é exatamente discutir as questões mais importantes relativas ao Estado brasileiro. Em grande parte essas empresas defendem um modelo de Estado que é o completo oposto do que as entidades sindicais defendem, que é um Estado voltado para os interesses da classe trabalhadora e do povo brasileiro no seu conjunto”, afirmou. 

O tema do reajuste salarial, explicou Rolim, “aparentemente esfriou um pouco”, mas a campanha 2022 está em andamento desde o início do ano. “A partir do mês de abril estamos sob as limitações da Lei Eleitoral, que impede reajustes salariais de uma maneira linear, ampla, para todos os servidores. Mas o tema tem que ser discutido, até porque mostrar o que está acontecendo a nível nacional que é a destruição do Estado brasileiro”, alertou. 

“Para se ter uma ideia, os professores das universidades federais, dos institutos federais, estamos há cinco anos sem nenhum reajuste salarial. Nós, da ADUFRGS-Sindical, representamos tanto os professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) quanto professores de campi dos institutos federais de Porto Alegre e interior do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul). A última vez que tivemos reajuste foi em um acordo que firmamos em 2015, no governo anterior ao golpe, com parcelas que terminaram em 2017. A nossa defasagem é da ordem de 37,16%, considerando o IPCA”, relatou Eduardo Rolim. 

O professor também contestou a visão de algumas pessoas quanto a possíveis privilégios dos servidores em relação à maioria da população. “Nós podemos discutir o que significa esse privilégio. Fala-se que nós, servidores públicos, não tivemos prejuízo com a pandemia. Isso não é verdade. Tivemos muitos prejuízos do ponto de vista da saúde, obviamente, mas tivemos uma sobrecarga de trabalho extremamente grande”, pontuou Rolim. 

“Há uma lenda de que o servidor público ficou em casa recebendo trabalho. Na realidade, nós professores, trabalhamos muito mais do que trabalhávamos antes. Já fazíamos muita coisa, mas tivemos que ampliar ainda mais. A adaptação para o ensino remoto foi algo muito custoso, tanto do ponto de vista humano, de preparação de um ensino de qualidade pelo computador, quanto financeiro”, destacou Rolim. “Os professores tiveram que arcar praticamente sozinhos com os custos de internet, equipamentos, material, para fazer seu papel social que é dar aula, ensinar nossos alunos, sem nenhum tipo de contrapartida das universidades”, acrescentou o sindicalista.

Rolim lembrou que há custos indiretos, como o impacto da reforma previdenciária, gerando redução salarial, aprofundando a defasagem. “Nossos aposentados tiveram diminuição de renda importante, inclusive aposentados doentes, com doenças incapacitantes, tiveram aumento enorme, que valeu também para os ativos”, disse o sindicalista. “Também houve os custos de adaptação ao trabalho remoto, que ao contrário do que aconteceu com a maior parte das empresas, que forneceram aos seus trabalhadores os materiais, conosco isso não aconteceu”, esclareceu.

“Então estamos tentando mostrar para a população que a nossa defasagem é muito grande e que, ao contrário de 2015, não temos nenhum tipo de negociação com esse governo. O ex-ministro da Educação, o do revólver, não teve nenhuma consideração com o conjunto dos servidores e professores em particular. Nunca fomos recebidos por esse ministro”, comentou Rolim.

Para o sindicalista, a campanha eleitoral tira o foco da campanha salarial, mas é preciso manter o foco. “Mas nós, servidores, temos o dever de não misturar as questões. A eleição é fundamental, é importante que mudemos o país, e existem alternativas de mudança e é importante que os trabalhadores estejam sintonizados com isso, mas não é algo que deva tirar o foco da nossa campanha. Em breve vai começar a ser discutida a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2023, e é muito importante que lá estejam os nossos salários”, recomendou. “O presidente alardeou que iria dar 5% de reajuste. Só na nossa categoria, de aproximadamente 150 mil servidores, a defasagem é de 37,16%. Então, não resolve. Mas é preciso ajustar a LDO”, complementou.

Ao finalizar a participação no programa, Rolim destacou as dificuldades com o ensino remoto em relação ao atendimento dos alunos e também falou sobre os problemas de saúde mental que afetam os docentes, em especial a partir da pandemia. “Precisamos trabalhar praticamente full time. Com essas tecnologias de ensino à distância, temos que estar respondendo o tempo inteiro a fóruns e discussões. Podemos responder a qualquer momento, mas o ensino à distância tem uma característica muito diferente. Nós, professores, temos uma responsabilidade enorme, inclusive com a motivação dos estudantes que estão do outro lado da telinha. Existem muitos estudos pedagógicos que mostram que o professor que trabalha com ensino remoto precisa trabalhar com a ideia da frustração dos alunos e da motivação, com aspectos psicológicos, pois do contrário muitas vezes o aluno desiste”, explicou. 

“Há uma característica muito séria de saúde dos próprios docentes, pois não é nada fácil dar aula para cerca de 30 alunos em que 99% deles estão com a tela apagada, por motivos diversos, e há artigos científicos tratando desses motivos, e isso torna tudo muito mais complicado para o professor. Então gera problemas de stress, adoecimento, depressão”, lamentou o professor, que também lembrou dos docentes com mais idade, que tiveram mais dificuldade com a transição para o modo virtual. Além disso, a fase atual da pandemia congrega os dois modos de ensino, remoto e presencial, outra dificuldade pontuada pelo sindicalista. “Agora vivemos um momento híbrido, então o trabalho dobra”, finalizou, explicando que as rotinas de trabalho são bastante distintas e exigem ainda mais dos profissionais.

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