“Este é o pior momento desde o início da pandemia”, avalia professora de epidemiologia Lucia Pellanda

Foto_Luiza Castro_Sul21Confira a entrevista com a professora de epidemiologia e reitora da UFCSPA, Lucia Pellanda, sobre o agravamento da pandemia no RS.

Desde o meio do ano passado, Porto Alegre teve apenas um dia com menos de 200 pacientes internados com covid-19 nas UTIs da cidade. O número de internações nas UTIs voltou a subir. Além disso, todo o comércio está aberto e a volta às aulas de modo presencial já começou em algumas instituições. Nesta quinta-feira, 18, o Rio Grande do Sul teve o maior número de internações desde março e o maior número de óbitos em um único dia. Para comentar sobre o agravamento da pandemia no RS, o portal Adverso conversou com a professora de epidemiologia e reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Lucia Pellanda, que alerta sobre a necessidade de medidas mais restritivas para conter o avanço da pandemia.

Portal Adverso – Como a senhora avalia este momento da pandemia em Porto Alegre?
Lucia Pellanda – Este é o pior momento desde o início da pandemia não só porque os números são os mais altos desde o início (hoje, 19 de fevereiro, temos o maior número de internações que já tivemos desde o começo da pandemia), como também pela velocidade com que isso está acontecendo. Aqui no RS, nunca havia acontecido nesta velocidade. O número de internações aumentou 34% em uma semana. Isso é muito preocupante e extremamente crítico.

PA – Qual a perspectiva para o próximo período?
Pellanda – Temos dois caminhos. Um deles é aumentar as restrições, os cuidados, as medidas não farmacológicas de distanciamento, uso de máscaras, comunicação muito efetiva com a sociedade e imunização rápida de uma boa proporção das pessoas. O outro caminho é o caos, o esgotamento do sistema de saúde, o aumento da mortalidade porque o grande problema é o esgotamento do sistema de saúde. Quando faltam leitos e oxigênio, todos são prejudicados como, por exemplo, quem tem infarto, quem se acidenta. Por isso, essa semana nos exige medidas de muito cuidado.

PA – O que a senhora aconselha a população a fazer para melhorar essa situação?
Pellanda – Cada um deve seguir uma sequência de medidas para ajudar a reduzir o risco. Não existe nenhuma medida 100% segura e outra que 100% certa de contaminação, é um espectro. Cada cuidado a mais que tomarmos, ajuda, assim como manter o distanciamento das outras pessoas de, no mínimo, 2 metros e usar máscara sempre que sair para a rua. O ideal é usar uma máscara de tecido bem ajustada com duas ou três camadas ou uma máscara de qualidade. Não precisa ser uma máscara cara. Há máscaras boas por volta de 2 ou 3 reais. Não é o valor que importa, mas o ajuste correto dela no rosto.

Uma das medidas mais importantes é não fazer aglomerações e lembrar que, quem não mora no mesmo domicílio, está multiplicando o número de contatos daquela pessoa. Todas as saídas desnecessárias como participar de reuniões, festas, ou seja, qualquer tipo de aglomeração deve ser evitado ao máximo. O pior ainda são as festas porque as pessoas tiram a máscara para comer e beber. O álcool também aumenta o comportamento de risco. Aglomerações em lugares fechados e sem máscaras são de alto risco. Devemos sempre higienizar as mãos e não tocar no rosto. Atividades ao ar livre são de menor risco de contaminação. Tudo que puder ser feito ao ar livre, mantendo o distanciamento e usando máscara, é muito mais seguro do que estar em lugares fechados. Caso seja inevitável ficar em um ambiente fechado, como no trabalho, é recomendável deixar as janelas abertas e ventilar o ambiente o máximo possível, podendo usar até um ventilador próximo à janela para aumentar a circulação de ar.

 

PA – Qual é a sua opinião sobre o retorno às aulas presenciais?
Pellanda – Neste momento, não dá para retonar porque os próximos 14 dias serão muito críticos. É importante considerar vários fatores, por exemplo, ainda não temos conhecimento completo sobre a penetração das novas variantes no RS, vimos que ouve uma média de idade menor nas internações, ou seja, pessoas mais jovens estão internando. Existe também um relato de vários hospitais de que os casos são mais graves, a mortalidade está aumentando. Todas essas coisas levam a pensar que não é o momento de liberar nada agora. É o momento de restringir um pouco mais. É óbvio que consideramos que as aulas são extremamente importantes e é claro que eu, pessoalmente, preferiria muito mais ver uma escola aberta do que uma festa ou uma atividade recreativa, por exemplo. Apesar de todas as atividades serem importantes, obviamente consideramos que a educação é essencial, mas não é o momento de retornar agora. Pelo menos, nos próximos 14 dias, não devemos falar em nenhum retorno.



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