Universidade do Futuro II – Integração entre universidade e escola é fundamental para superar a crise no ensino médio

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Integrar a universidade com o ensino médio de uma maneira mais efetiva, melhorar as licenciaturas no sentido de tornar os professores mais aptos à função de mediador do conhecimento e fortalecer o ensino na área de humanas foram alguns caminhos apontados pelos participantes da mesa na palestra que abriu o segundo ciclo “Universidade do Futuro: autonomia”, na última quarta (18/09), com o tema “A crise no Ensino Médio”.

O evento, resultado de uma parceria entre o Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA/UFRGS) e a ADUFRGS-Sindical, reuniu professores e estudantes no auditório do ILEA/Campus do Vale, que ouviram exposições dos professores Dirce Maria Fagundes Guimarães, diretora do Colégio de Aplicação da UFRGS, Simone Valdete dos Santos, diretora da Faculdade de Educação da UFRGS, Luiza Helena Pereira, professora do Departamento de Sociologia do IFCH da UFRGS e Adolar Koch, professor do Departamento de História do IFCH da UFRGS.

Dirce Guimarães abriu o debate dizendo que o problema da educação básica tem várias raízes e que seria necessária uma parceria com as licenciaturas para buscar uma “solução transformadora”. Segundo a diretora do Colégio de Aplicação, uma pesquisa recente apontou que o alto índice de evasão no Ensino Médio não tem como principal causa a situação socioeconômica do aluno (que muitas vezes o obriga a parar de estudar para trabalhar), mas a monotonia das salas de aula. “A maioria dos alunos disse que saiu da escola porque as aulas eram chatas”, disse.

A professora lembrou que as atuais diretrizes para a educação básica (LDB) são excelentes, mas que há uma enorme distância entre o que elas apontam e a prática na sala de aula. “Vivemos em um mundo onde a informação está em toda parte, a escola hoje é mediadora e o professor é orientador, organizador. O papel da escola e do professor não é mais de transmitir o conhecimento”, justificou.

Simone Valdete dos Santos, diretora da Faced/UFRGS, fez um discurso no mesmo sentido. “Falar da crise no ensino médio é também falar da crise nas licenciaturas”, afirmou. A professora apresentou ainda números recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) que apontam para uma evasão significativa nos ensinos fundamental e médio em 2012 em relação a 2011.

Segundo ela, o Brasil tem 110 milhões de pessoas, com idade acima de 10 anos, que não concluíram a educação básica (menos de 12 anos de estudo), ou seja, há uma demanda grande para a educação básica. No entanto, registra-se uma grande evasão de alunos. Para Simone, é preciso levar em conta o contexto atual para se buscar respostas que justifiquem esse quadro e possam apontar saídas. “O Brasil é a 6º economia do Mundo e tem uma legislação muito boa na educação, que favorece as políticas na área; temos o Fundeb, que financia as matrículas; temos um monitoramento dos resultados, com ranqueamento das escolas e das redes, e temos o Enem. O índice de evasão é muito mais complicado do que o de retenção (reprovação), que é de 30% no Rio Grande do Sul, porque é um investimento alto feito em estudantes que não ficam na escola”, explica.

A diretora da Faced ressalta que a crise no ensino médio tem impacto também nos cursos técnicos, já que o primeiro é pré-requisito para o segundo, e reforça a ideia de que são necessárias mudanças urgentes na metodologia. “É preciso enxergar o jovem na situação atual e não apenas no futuro. O ensino médio tem que ter um fim em si mesmo e servir para o estudante que está concluindo, não pode ser apenas um preparo para a universidade ou para o ensino técnico”, observa.

Crise traz oportunidade de reflexão 

Para a socióloga Luiza Helena Pereira os educadores devem encarar a crise no ensino médio como uma oportunidade de reflexão sobre as práticas atuais. “A crise vai estar sempre presente, porque a sociedade está em constante movimento, em constante transformação. A crise é produtiva, porque traz novas questões que precisam ser repensadas”, disse.

A professora, que coordena uma pesquisa sobre o ensino de sociologia no ensino médio, defende que a carga horária imposta à grande maioria dos professores da educação básica seria um dos entraves nesse processo de mudanças na forma de ensinar. “Salário é importante, mas a questão da carga horária é dramática, porque o professor do ensino médio da rede pública, por exemplo, não tem tempo para preparar aula e para se qualificar”, ressalta.

Sobre a indagação que deu início ao debate, “por que o aluno do ensino médio não quer ficar em sala de aula?”, Luiza Helena coloca como fundamental o ensino das disciplinas de humanas (sociologia e filosofia) como forma de dar oportunidade ao jovem de compreender o mundo em que ele vive. “Talvez, entendendo melhor o contexto em que está inserido e se colocando como protagonista da sua história, o jovem possa ter mais interesse pela escola, melhorar o desempenho, quem sabe?”, indaga.

A professora apresentou números oficiais do censo de 2010 que indicam uma população de 10 milhões de jovens com idade entre 15 e 17 anos. Desses, cerca de 8 milhões estão na escola. “E os outros 2 milhões, onde estão?”, lançou a pergunta. Para ela é preciso refletir também sobre o quê ensinar, de que forma ensinar e ensinar a quem. “É preciso conhecer o aluno e as metodologias. E metodologias eu entendo como propostas téorico-metodológicas e não como técnicas de ensino”. Luiza Helena defende que o professor deve ser também pesquisador e não somente reprodutor do conhecimento, mas reconhece que para isso tem que haver uma maior proximidade da universidade com a escola. “Esse distanciamento que existe hoje é muito negativo”, observa.

Adolar Koch, professor do Departamento de História do IFCH, lembrou que essa crise na educação básica é estrutural e vem de longa data. Ainda assim mostrou-se surpreso com os altos índices de evasão escolar e definiu o desinteresse dos jovens pela escola como uma “situação muito séria”, que deve levar os professores a repensar o modelo que vem sendo utilizado. “Os jovens de hoje estão em outro mundo e a universidade ainda caminha a passos lentos para acompanhar essas mudanças”, disse.

Para Koch, a relação de ensino deve ser mais próxima, mais afetiva, mais informal, e a mentalidade, que vem desde os anos 70, de que o ensino profissional é mais importante, deve ser abolida. “É preciso reforçar o ensino de humanas no ensino médio e na universidade. Essa crise que se formou a partir do Programa Mais Médicos mostrou que muitos médicos, apesar de competentes na área em que atuam, não conseguem enxergar a problemática social de uma forma mais ampla”, observou.

O professor enumera uma série de ações que juntas poderiam tornar a escola mais interessante. “A formação em valores humanos, fortalecida ao lado da formação profissional, em um contexto transdisciplinar com formação integral do ser humano, onde prevaleça a crença em todos (professor e aluno), o respeito à diversidade, saber ouvir, descobrir e criar o mundo juntos a partir da sala de aula. Com isso, seguramente as aulas serão menos chatas e haverá menos evasão”, acredita.

Adolar Koch também compartilha a ideia defendida pelas professoras Dirce, Simone e Luiza, de que é fundamental para esse processo de mudança estreitar os laços entre universidade e escola. “A universidade deve ter um olhar diferente sobre o ensino médio, enxergar o ensino médio como parte da universidade. É preciso superar o círculo vicioso que existe e criar um círculo virtuoso, que insira o estudante do ensino médio nas atividades da universidade”.

Antes de abrir o debate para a plateia, a diretora do CAp/UFRGS, Dirce Guimarães, reforçou que o planejamento do currículo deve passar pelo conhecimento sobre o aluno, como forma de adequar melhor o ensino à realidade de cada um.

E entre as ações para promover essa mudança, Dirce contou que o CAp criou um projeto chamado “O que pode ser mais interessante na escola do que o recreio?”, a partir da resposta das crianças quando indagadas sobre o que havia de melhor na escola: a maioria respondeu que era o recreio.  “Enquanto não entendermos que é preciso sacudir, quebrar a monotonia e fazer com que o aluno se interesse pelas aulas, essa mudança não vai acontecer”, disse.

Para Dirce, o professor não está preparado para atuar com autonomia como prevê a LDB, porque a universidade forma muito bem do ponto de vista de conteúdo, mas a maioria sai mal preparada para atuar como mediador do conhecimento.

Reforma do Ensino Médio e políticas públicas para sustentar a educação universal

Após as explanações, a plateia se manifestou com perguntas e relatos de experiências próprias. Entre as questões colocadas estavam a Reforma do Ensino Médio na Rede Estadual, o desinteresse da sociedade em formar cidadão crítico e a falta de políticas públicas para sustentar o projeto de universalização do ensino previsto na Constituição Federal.

Simone Valdete, que antes havia focado a explanação apenas na crise, fez algumas observações sobre as políticas da UFRGS voltadas para a formação de professores, com destaque para o Centro de Formação de Professores (Forprof), que promove cursos em todo o Estado. Segundo ela, a UFRGS oferece uma gama de recursos voltados para formação continuada do professor.

Sobre a Reforma do Ensino Médio no Estado, Simone acredita que o Politécnico veio como proposta de mudança, em meio à crise do ensino médio. “É uma proposta interessante, mas a rede estadual tem um histórico de precarização muito longo e uma carência de professores com licenciatura. E massificar uma proposta pedagógica para uma rede em crise é muito complicado. Talvez tenha bom resultado em escolas que tenham uma proposta institucional”, defendeu.

Dirce Guimarães ressaltou o fato dos jovens que hoje ingressam na Universidade não se interessarem pela docência, o que poderia ser justificado pela desvalorização do professor. Em consequência, vêm o esvaziamento da escola e a reforma do ensino médio, o que acaba gerando um círculo vicioso. E é justamente em “sair desse círculo vicioso e passar para um círculo virtuoso” que reside o grande desafio, segundo o professor Adolar Koch. Luiza Helena defendeu que as políticas devem ser de Estado e não de governo, “porque quando muda o governo muda tudo e isso desestimula qualquer professor”.

A primeira palestra do II Ciclo de Palestras “A Universidade do Futuro: autonomia” estará disponível em breve no youtube.

Vale ressaltar que no dia seguinte, 19 de setembro, o sociólogo Emir Sader, em sua palestra na abertura do II Encontro Regional da Internacional da Educação para a América Latina (IEAL) – Porto de Galinhas/PE, 19 a 21 de setembro – disse que “é fundamental que a educação seja capaz de oferecer ao aluno uma compreensão subjetiva e objetiva do mundo, e de atraí-lo para a escola, pois a juventude está apartada do modelo de ensino atual”.

 

Texto e foto

Maricélia Pinheiro

Assessora de Comunicação da ADUFRGS-Sindical

adufrgscomunica@gmail.com

 



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