Debatedores centraram as discussões em cima do futuro da Educação no Brasil
A ADUFRGS-Sindical, em conjunto com o CPERS-Sindicato, realizaram, neste sábado, 1º de agosto, o evento “BRASIL 2030: A Educação que precisamos para o País que queremos”, que discutiu os desafios da educação brasileira para o desenvolvimento do Brasil e encerrou com a leitura da Carta de Porto Alegre. A atividade começou pela manhã e seguiu até o início da tarde, com Juliane Furno, Miguel Stédile, Daniel Cara, Vera Maria Vidal Peroni, Eliezer Pacheco, painelistas renomados em um diálogo aberto com o público. O evento contou ainda com o apoio do DCE/UFRGS, DCE/PUCRS, Sinpro/RS, Associação Mães e Pais pela Democracia (AMPD) e MST. Quem perdeu pode assistir o debate completo pelo Canal da ADUFRGS no YouTube (veja abaixo).
Os palestrantes buscaram responder a questões voltadas para a Educação e o futuro do País, como a melhor forma de promover, de fato, uma educação pública, gratuita e de qualidade socialmente referenciada, considerando a construção da cidadania e do desenvolvimento econômico e social. Também foram debatidos os papéis da escola pública, das universidades, e dos Institutos Federais.
O evento iniciou com a recepção aos participantes e uma apresentação musical do barítono Francis Padilha, regente do Coral da ADUFRGS, e a manifestação das instituições proponentes e apoiadoras. Na primeira parte do evento, especialistas e representantes sindicais discutiram a ausência de um projeto nacional de educação, a crise climática e o impacto de Parcerias Público-Privadas (PPPs) nas escolas do Rio Grande do Sul. Foi destacado o problema do orçamento público, do financiamento, a falta de metas atingíveis (como o investimento de 10% do PIB) e a preocupação com a “plataformização” e privatização do ensino, além de temas como home schooling e militarização do ensino. Após o intervalo, o público presente presencialmente e também on-line pôde participar com perguntas, e os palestrantes fizeram um fechamento das ideias apresentadas com as reflexões dos participantes.
Juliane Furno, economista e cientista social pela UFRGS, mestre e doutora em desenvolvimento econômico pela Unicamp, professora da faculdade de economia da UFF, pesquisadora do Instituto Tricontinental, compartilhou reflexões e analisou questões econômicas vinculadas ao desenvolvimento e à educação. Ela destacou, em uma de suas manifestações, a preocupação com o abandono da universidade pública pela classe média. “Tenho medo que os ricos abandonem a universidade pública e ocorra o mesmo que aconteceu com a educação básica pública, que os ricos vão estudar no exterior. Agora que a universidade se popularizou, ela está sendo colocada em cheque”, refletiu. “Está sendo colocada em cheque e a valorização do professor, e da estrutura, obviamente, é um elemento importante que eu acho que a gente tem que pensar isso em termos também de disputa orçamentária. Quer dizer, a universidade carece de financiamento para diversas questões, mas também da valorização do salário do professor, porque grande parte do gasto com educação é salário de professor, e não há problema nisso. ‘Ah, grande parte do gasto do Estado é com força de funcionalismo público e não com educação’. Mas o que é educação senão gasto com o trabalhador que faz a educação?”, pontuou Juliane. (Veja vídeo aqui.)
Miguel Stédile, mestre e doutor em História pela UFRGS, diretor da Faculdade Josué de Castro do Movimento Sem Terra e coordenador do departamento de História e Sociologia do Tricontinental Instituto de Pesquisa Social, falou sobre o peso do sistema financeiro dentro da educação e o tema da privatização. “Eles não querem a privatização total da escola, a privatização, a parte não lucrativa continua sempre com o Estado. Eles não querem a privatização total. É a gestão. Não é privatizar o professor, ou a infraestrutura. Mas não existe discussão de gestão sem discussão pedagógica, isso interfere diretamente no que interessa. Então, o comportamento do capital na periferia é parasitário, tanto no sentido de se aproveitar com pouco esforço, quanto no que ele devolve. Não é o capital do século XX, não é o capital do Marx, de indústria. É o capital que só extrai e produz muito pouco”, exemplificou Stédile. (Veja vídeo aqui.)
Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da USP, coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, laureado com o Prêmio Darcy Ribeiro pelo Congresso Nacional (2015) e Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro (2025), tratou da qualidade do ensino da plataformização. “Uma parte significativa de startups que são criadas vão para plataformas de educação e saúde porque são áreas que de fato existe possibilidade de concorrência. Em 2016, a Organização das Nações Unidas na Comissão de Educação, sob a liderança do Gordon Brown, que foi primeiro-ministro do Reino Unido, criou a comissão de educação, Education Commission. E essa comissão de educação, ela substituía a UNESCO, que é quem tem o mandato de educação na ONU, para criar formas inovadoras de financiamento da educação, que na prática são estratégias de privatização da educação”, relatou o professor. (Veja vídeo aqui.)
Vera Maria Vidal Peroni, professora titular da UFRGS, visitante na UNIFESP e coordenadora do Grupo de Pesquisa Relações entre o Público e o Privado em Educação e do Diretório Grupo de Pesquisa Estado e Políticas Públicas de Educação Básica, participa da Rede Latino-Americana e Africana de pesquisadores em privatização da educação e coordena a pesquisa “A relação público-privado em países latino-americanos: sujeitos e conteúdo da proposta”, financiada pelo CNPq. Ela tratou de outro aspecto da plataformização, o da coerção do trabalho do professor, em um nível que não viu “nem na ditadura”. “Se os professores não fossem tão importantes, se o trabalho intelectual do professor não fosse tão importante, não estariam há 25 anos tentando botar camisa de força nos professores. Estão fazendo todas as formas para que o professor não possa dar sua aula. Essa questão da plataformização é uma das questões mais graves, além das bigtechs”, alertou. (Veja vídeo aqui.)
Eliezer Moreira Pacheco, graduado em História (UFSM), especialista em Ciência Política (UFRGS), mestre em História (UFRGS), doutor Honoris Causa Instituto Federal do Acre (IFAC), secretário de Educação de Porto Alegre (2001/2003), presidente do INEP (2004/2005), secretário nacional da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (2005/2012), falou sobre a necessidade dos sindicatos realizarem ações e debates como este. “Os sindicatos e os sindicalistas têm que fazer um esforço para além das suas questões específicas, são importantes, debater questões como essa que nós estamos discutindo aqui, porque alguém que faz formação dessa tem melhores condições de compreender e enfrentar as dificuldades”, afirmou, passando a abordar gestão democrática da escola. “Eu não acho que gestão democrática seja eleição de diretor, também faz parte, não só. Porque nós levamos para dentro da escola pública todos vistos da democracia liberal burguesa, populismo, poder econômico, demagogia, né? Claro que não pode ser uma indicação de governo, uma indicação política do governo. Isso é um desastre, tem que ser democrática. Agora, acho que nós devemos discutir todas as formas de democracia na escola”, completou, indicando ainda a necessidade de autonomia nas universidades. (Veja vídeo aqui.)
O debate foi finalizado com a leitura da Carta de Porto Alegre, além de falas sobre a importância da resistência sindical, a entrega de lembranças aos convidados e apresentações culturais do Coral da ADUFRGS e do artista atípico B-Boy Billy Anderson.

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